RECUPERAÇÃO LEVARÁ TEMPO

Abertura do impeachment não destrava economia de imediato

Independentemente do que ocorrer, a expectativa é que o PIB caia quase 4% neste ano, com uma inflação de 7%

As incertezas políticas que pairavam sobre o Brasil nos últimos meses tendem a ser alteradas a partir do indicativo de mudança no governo. Com a aprovação da abertura do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff na Câmara Federal, uma das principais questões do momento é: agora a economia do País vai destravar? Para especialistas ouvidos pela reportagem, efeitos positivos poderão ser sentidos no curto prazo, mas ainda é cedo para afirmar que ocorrerão mudanças importantes no cenário macroeconômico.

No mercado, o clima ainda é de expectativa com relação ao futuro próximo. E os impactos econômicos de um eventual governo Michel Temer ainda não são claros. Além disso, independentemente do que ocorrer, a expectativa do mercado é que o Produto Interno Bruto (PIB) caia quase 4% neste ano, com uma inflação de 7%.

"Acredito que a economia ainda vai sangrar um pouco, passará por um processo de deterioração de vários indicadores, e isso vai permanecer por um tempo", avalia o economista Ricardo Eleutério, professor de economia internacional e de mercado de capitais. "No curto prazo, não devemos vislumbrar uma mudança significativa. As expectativas de PIB e de inflação ainda são ruins. E a inércia dessas variáveis deve continuar", observa.

Câmbio

No primeiro momento, os efeitos da votação do impeachment deverão ser sentidos nos mercados de capitais e cambial, diz o economista Carlos Eduardo Marino. "Sem dúvidas, isso pode ter algum impacto positivo na economia e pode fazer com que alguns indicadores melhorem rapidamente, principalmente no mercado financeiro. Mas eu não acredito que no cenário macroeconômico, de médio e longo prazo, haverá melhorias, até porque a instabilidade política permanecerá, mesmo em um governo Temer", acrescenta.

Investimentos

Mesmo que o resultado favorável ao impeachment da presidente Dilma Rousseff seja visto de forma positiva pelos investidores, o economista Delano Macêdo, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças no Ceará (Ibef-CE), acredita que ainda é muito cedo para apontar, neste momento, uma melhora na disposição de investir no País.

"Tudo indica que está sendo virada uma página na história do Brasil. O cenário está ficando mais claro, mas ninguém sabe ainda o que o PT vai fazer, o que o STF (Supremo Tribunal Federal) vai fazer, ou o que acontecerá na (operação da Polícia federal) Lava-Jato. E esse tipo de coisa não dá para antecipar antes de estar tudo definido. Porque, até lá, tudo pode mudar", diz.

Delano Macêdo acredita que o mercado veria com bons olhos a sinalização de que o governo, independentemente de que estiver no comando, tomasse medidas no sentido de fazer um ajuste no orçamento, e indicasse uma equipe de técnicos para a área econômica.

"É uma visão de médio prazo, que tende a ser mais positiva para a economia. O fato é que nem o Brasil nem os brasileiros aguentam mais isso do jeito que está", destaca Macêdo.

Retomada da produção

Antes de voltar a investir, contudo, o setor da indústria, um dos principais prejudicados pela crise econômica pela qual passa o País atualmente, tem que voltar a operar e cobrir sua capacidade ociosa, o que não deve acontecer no curto prazo.

"O Produto Interno Bruto encolheu no ano passado, e vai encolher neste ano. Então, no primeiro momento, a gente irá utilizar essa capacidade ociosa instalada, que hoje está entre 40% e 60%. E, num segundo momento, é que virão novos investimentos em inovação, modernização e expansão. Esses investimentos ainda vão demorar a acontecer", assinala Eleutério.

Emprego

Ele ressalta que serão estes investimentos os responsáveis pela volta do crescimento do PIB, que, por sua vez, irá impactar na geração de empregos. No entanto, Eleutério acredita que, antes disso, o País poderá atrair investimentos estrangeiros, devido aos preços atrativos das empresas brasileiras, na medida em que for recuperando a credibilidade no mercado internacional.

"É possível que parte da retomada dos investimentos seja feita por estrangeiros, por meio de processos de fusões e aquisições de empresas de capital aberto, porque o Brasil ficou barato", conclui Ricardo Eleutério.

Desgaste

"Acredito que a economia ainda vai sangrar um pouco, passará por um processo de deterioração de vários indicadores"

Ricardo Eleutério

Economista

"Eu não acredito que no cenário macroeconômico, de médio e longo prazos, haverá melhorias"

Carlos Eduardo Marino

Economista

O que eles pensam

Setor produtivo cearense vive expectativa de melhoria

"Qualquer atitude por parte dos setor público, que traga tranquilidade ao setor produtivo, é considerada um fato significativo. O quadro atual pode vir a contribuir para a estabilidade nas decisões do governo, o que resultará no incremento de nossas atividades. O nosso setor não vem sendo impactado como comércio e serviços. O equilíbrio do setor público será bem-vindo"

Flávio Saboya

Presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec)

"É muito difícil ter noção nesse momento para onde vamos. Acredito, dentro de uma perspectiva otimista, que a coisa vá melhorar, mas não há nada de concreto em que possamos confiar. Pior não pode ficar. Mas nós temos mais o que consertar nos nossos negócios, do que na situação do País. Vamos fazer o nosso dever de casa em vez de jogar a responsabilidade nos outros"

Gerardo Vieira

Presidente da Associação Cearense de Supermercados (Acesu)

"Foi gerada a expectativa que haverá mudança do ponto de vista político, o que acabará influenciando a economia. Pois quando a parte política não tem credibilidade, prejudica os investimentos tanto internos, quanto externos. Isso influencia na ponta. É cedo para atingir a economia como um todo. Mas espero que a credibilidade seja recomposta e que o País volte a crescer"

Maurício Filizola

Vice-presidente da Federação do Comércio do Estado do Ceará (Fecomércio-CE)

"A partir de hoje ou de amanhã as condições macroeconômicas ainda são as mesmas, mas há mudança no humor das pessoas. E é a confiança que pode mudar o cenário, voltando a animar a economia. O ponto alto de tudo é a sociedade organizada. Agora é baixar um pouco a cobrança e oferecer tempo para estabilizar um ambiente definitivo de crescimento. Voltamos a sonhar"

Beto Studart

Presidente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec)

"É pouco tempo para se emitir uma opinião. O fato é que o Brasil, por conta da questão política, parou a economia. O ocorrido de domingo ainda é muito parcial, pois vamos ter alguns passos. Para muitos, já traz uma ideia de que as coisas vão ter um desfecho. O que não pode é ficar do jeito que estava. Para que tenha uma mudança efetiva, é preciso um acordo entre as partes"

Honório Pinheiro

Presidente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL)

"O governo deverá adotar medidas de austeridade. É preciso lisura na condução do país, com cortes no custeio da máquina pública e real compromisso com mudanças na política econômica. O atual momento do Brasil exige doses iguais de esperança e cautela. O encaminhamento do impeachment para o Senado é um primeiro passo para a retomada da governabilidade"

José do Egito Frota Lopes Filho

Presidente da Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores (Abad) - (Diário do Nordeste)