SAÚDE

Catadores de lixo enfrentam riscos à saúde nos lixões

Vivendo em ambientes insalubres, os catadores correm riscos de contaminação. A falta de equipamentos de proteção potencializa os danos

Quando o caminhão de coleta chega para despejar os resíduos, Lúcia Gomes, 55, diminui a conversa. As mãos ligeiras buscam no monturo algum material que seja possível converter em sobrevida. É preciso estar atenta. Sem luvas, máscaras ou outro equipamento de proteção, ela se embrenha no improvável à procura do plástico, do alumínio e da vida. O trabalho é perigoso, ela sabe, mas a necessidade não dá margem para ponderações. “Nunca tive medo de doença porque tenho fé em Deus”, confia. Ali, no lixão do município de Guaiúba (Região Metropolitana de Fortaleza), catadores como Lúcia enfrentam as condições insalubres para garantir sustento.

Dia desses, um corte deixou José Mauro da Silva, 38, afastado do trabalho por três dias. “Não tava nem bom ainda quando resolvi voltar pra cá. Tinha que trabalhar, se não, ficava sem dinheiro”. Aos sábados, os catadores vendem o acumulado durante a semana. Um dia sem ir ao lixão significa redução no apurado.

A pressão por produtividade é um dos motivos que os distanciam dos consultórios médicos. “Não sei nem quando foi a última vez que fui pra doutor. Vacina eu não sei nem o que é. Só tomei quando era menino”, conversa Mauro, homem que há cinco anos viu-se catador, após perder o emprego de servente em obras.

Lidando com os restos, a saúde desses trabalhadores é posta à prova a cada dia de serviço. Não é difícil encontrar uma seringa usada no meio do lixo amontoado. Há cerca de um ano, eles precisavam conviver com o lixo hospitalar da Cidade que ainda tinha aquele lixão como destino. Fora isso, tem os cortes provocados pelos cacos de vidro e o contato direto com comida estragada. “A gente já tá acostumado, mas de vez em quando ainda encontra coisa feia. Essa semana eu dei de cara com um bicho morto, já apodrecendo dentro de um saco”, recorda Lúcia.

Atividade de risco

Por estarem expostos aos riscos, trabalhadores dos lixões têm mais probabilidade de adquirir problemas de saúde como leptospirose, dermatites de contato, infecções gástricas e verminoses de toda ordem. É o que alerta o professor Gemmelle Oliveira Santos, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), que estudou a relação entre os lixões e a saúde dos trabalhadores.

“Essas pessoas têm riscos ampliados, pois acabam tendo contato com o chorume (líquido resultante da decomposição do lixo) e inalam os gases provenientes do apodrecimento dos materiais orgânicos”, detalha.

“É impossível lidar em um ambiente completamente contaminado e sair sem doenças”, reforça o médico infectologista Anastácio Queiroz. Para ele, a convivência prolongada no ambiente dos lixões repercute, inclusive, na redução da expectativa de vida dos trabalhadores. Muitas das doenças adquiridas no local, por falta de tratamento, se tornam crônicas.

Invisíveis

“Aparentemente, esses trabalhadores parecem ser fortes e resistentes. De fato, o contato cotidiano com esse ambiente pode trazer certa resistência, mas será que são realmente saudáveis?”, questiona Queiroz, informando que faltam estudos que avaliem, de maneira mais completa, a saúde desses profissionais.

A falta de assistência médica nos lixões é uma das preocupações de Charliany Morais, militante do movimento estadual dos catadores de material reciclável e membro do Conselho de Leitores do O POVO. “Muitos dos trabalhadores não têm acesso às informações. Eles comem dali, não têm muita noção do perigo. Eles sabem que é sujo, que existe o risco, mas não sabem como se proteger”, alerta. Segundo ela, os perigos são relativizados por uma questão ainda mais urgente: a sobrevivência.

“De fato, o contato cotidiano com esse ambiente pode trazer certa resistência, mas será que são realmente saudáveis?”, questiona Anastácio Queiroz ( O Povo)