ORÇAMENTO DOMÉSTICO

Mais trabalhadores sacrificam poupança

Cenário econômico tem levado as famílias a sacarem recursos da caderneta para tentar quitar despesas

A retirada de recursos da caderneta de poupança só aumenta constantemente no Brasil devido à situação política e econômica nacional. A alta da inflação, dos juros, do desemprego, de tributos e do nível de endividamento das famílias tem levado mais brasileiros a mexer no dinheiro que estava guardado para tentar quitar as despesas. Diante do cenário de instabilidade, a tendência é que esse comportamento permaneça, mas algumas mudanças de hábito podem ajudar os trabalhadores a não sacrificar suas economias.

O presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças no Ceará (Ibef-CE), Antonio Roque de Albuquerque, observa que as famílias devem se esforçar ainda mais para diminuir e cortar gastos, inclusive aqueles considerados essenciais. Despesas com alimentação, água, energia elétrica e cartão de crédito, por exemplo, podem ficar mais leves com algumas atitudes.

"No caso da energia, é possível utilizar menos a máquina de lavar e o ferro de passar para reduzir o consumo. Dá também para aproveitar os dias de promoções nos supermercados, pesquisar sempre os preços, fazer uma lista dos produtos essenciais e a substituição de determinados itens quando necessário", exemplifica o especialista.

Além disso, Albuquerque afirma que é preciso eliminar gastos supérfluos, como não comprar bens e serviços sem necessidade (roupas, calçados, alimentação fora do lar, etc) e evitar dívidas que podem ser adiadas, a exemplo de um financiamento de veículo. "É necessário muita disposição para fazer isso. Cortar os excessos e abrir mão de alguns gastos não é fácil, mas é essencial no atual momento do Brasil", argumenta o presidente do Ibef-CE.

Esforço

Desde o fim do ano passado, o aposentado Antenor Cavalcante, 76 anos, por exemplo, vem mexendo no dinheiro da poupança para não recorrer ao cheque especial, cuja taxa média de juros já está em 13,08% ao mês. Ele lembra que, por conta do aumento no custo de vida dos brasileiros, o salário dos trabalhadores vem sendo desvalorizado e, muitas vezes, não sobra nada no fim do mês.

"A situação é ainda pior para quem é aposentado, que geralmente não consegue meios para complementar a renda. Quando a gente está no mercado de trabalho, é possível conseguir um trabalho extra para não sentir tanto os impactos", argumenta o aposentado, destacando que tem procurado economizar o máximo possível para não sacrificar todo o dinheiro da poupança. "Estou tentando contornar essa situação, mas está complicado", acrescenta.

Recordes

O presidente do Ibef-CE lembra que, no primeiro trimestre deste ano, a fuga de recursos da poupança bateu recorde. De janeiro a março, a saída de valores ficou em R$ 24,05 bilhões, contra R$ 23,23 bilhões registrados em igual período de 2015 (recorde anterior). No ano passado, R$ 53,36 bilhões deixaram a modalidade de aplicação, segundo o Banco Central do Brasil. Foi a primeira vez em dez anos que mais recursos saíram que entraram da caderneta, sendo também a maior fuga de valores desde o início da série histórica da instituição financeira.

"Infelizmente, pelo menos no curto prazo, não há nenhuma perspectiva de melhoria. Mais pessoas vão continuar recorrendo à poupança para cumprir seus compromissos financeiros. Ainda não temos o hábito de poupar no Brasil, mas as pessoas estavam começando a ter essa cultura. Vinham acumulando valores para dar entrada numa imóvel, num automóvel, reformar a casa. Mas, de repente, foram obrigadas a adiar esses investimentos por conta do retrocesso observado na economia", destaca Albuquerque.

Ele lembra ainda que a criatividade e a disposição do trabalhador brasileiro para complementar a renda também não têm sido favorecidas com a crise econômica.

Com as atividades das empresas em queda, quem costumava fazer hora extra para incrementar o salário não está conseguindo com tanta facilidade. "As demissões também estão aumentando, já são mais de dez milhões de desempregados, e a recolocação no mercado de trabalho está mais difícil", conclui o especialista. (Diário do Nordeste)