JORNALISTAS

Às voltas com um novo 7 a 1

Jornalistas dos canais ESPN apontam incapacidade do Brasil em aprender com sua maior derrota; para eles, um outro vexame não está descartado

"Entre Simeone e Guardiola, sou mais Guardiola", assegura Mauro Cezar Pereira, um dos mais graduados jornalistas do País quando o assunto é futebol. A maneira dura, direta, muitas vezes confundida com antipatia por alguns "fãs do esporte" - forma como os canais ESPN, onde trabalha, se referem a seus telespectadores - com que constrói seus comentários pode emprestar uma impressão equivocada sobre ele. A predileção declarada pela metodologia mais estilística apregoada pelo técnico Pep Guardiola em detrimento do pragmatismo de Diego Simeone demonstra, de certo modo, que Mauro ainda conserva boas doses do idealismo da época de universidade. Mesmo aos 52 anos, destila inconformismo com injustiças sociais e indignação com toda sorte de desmandos sempre que os divisa.

Ao seu lado, está seu colega de emissora Paulo Andrade, narrador, também consagrado. O peso no currículo de já ter trabalhado com destaque nos maiores eventos do futebol mundial contrasta com o carisma do sorriso fácil, só interrompido quando é hora de falar sobre coisas sérias.

"Adoraria narrar uma partida de Campeonato Brasileiro", deixa escapar, quando perguntado sobre algo que ainda não fez na carreira. Mesmo já sendo um gigante da comunicação, consegue entregar modéstia, numa demonstração de equilíbrio que é lição para jovens aspirantes ao ofício da narração.

Ambos atenderam a reportagem no saguão de um hotel na Beira-Mar, horas antes de encarar a cobertura de Fortaleza x Flamengo, pela Copa do Brasil. Na conversa, discorreram sobre os rumos do jornalismo e os descaminhos do futebol nordestino. Também não se furtaram de comentar sobre o padecimento do futebol nacional após o 7 a 1, que, para ambos, ainda está longe de ser devidamente digerido.

Como é a preparação para um jogo como este, de Copa do Brasil?

PA: A primeira coisa que busco é informar igual sobre as duas equipes. Tenho que respeitar as duas torcidas. Então, demando algumas horas para estudar cada uma. Há pouca diferença se estou narrando Copa do Brasil ou Liga dos Campeões. O tempo de dedicação é o mesmo.

MCP: É evidente que há um acompanhamento maior dos times de São Paulo, Rio, Rio Grande do Sul e Minas. Seria hipocrisia falar: 'ah, a gente acompanha tanto o futebol cearense como o carioca. Não. Quem disser o contrário está mentindo, porque é humanamente impossível. Mas isso não pode servir de muleta para você simplesmente ignorar uma das equipes.

Como analisa o futebol do Nordeste hoje, em relação ao que viram no passado? Acha que houve evolução?

MCP: O Nordeste vive um problema do Brasil, um país de muitas desigualdades econômicas, e a região é ainda mais prejudicada nisso. E quando os times chegam à Série A, há o agravante de terem de se deslocar muito mais do que os outros. Como mudar isso? É difícil, mas da mesma maneira que um governo tem a obrigação de buscar reduzir desigualdades sociais, a CBF deveria subsidiar, já que tem tanto dinheiro, o futebol de algumas regiões. Como? É uma longa discussão. No entanto, a CBF não faz esforço para fomentar o futebol. Fomenta só as federações, exatamente para reeleger os mesmos caras sempre. Então, acho que há evolução, mas não tão consistente quanto deveria.

É possível haver caso similar ao do modesto Leicester (campeão inglês) vindo do Nordeste no Brasil?

MCP: O Leicester é um ponto fora da curva, um negócio inexplicável. Existe uma ilusão de que na Inglaterra se distribui melhor o dinheiro. Sim, o da televisão, mas é apenas um pedaço do faturamento dos caras. Os ricos ganham ainda com publicidade, com bilheteria... O Arsenal tem o ingresso mais caro da Premier League, 60 mil pessoas por jogo. Quanto ganha por jogo? Não só de ingresso, como de produtos vendidos no estádio e tudo mais. Sem contar que esse capital entra antes, pois vendem os tiquetes por temporada no início do ano. Então, não são tão dependentes da TV como aqui.

Para vocês, qual seria a principal característica do torcedor cearense?

PA: Torcidas apaixonadas. E isso é uma característica do Nordeste. O fanatismo que têm pelos times, o orgulho. É assim que vejo de uma maneira geral.

MCP: Há ainda muitos torcedores dos times do Sudeste. Porém, quando vêm times de fora, as torcidas locais formam a grande maioria no estádio. Mas há uma discussão que acho interessante. Eu abomino aquela faixa 'vergonha do Nordeste', que alguns torcedores colocam apontando para os dos times de fora. No mundo ideal, as pessoas torceriam para as equipes de suas regiões, mas você não pode obrigar ninguém a torcer por A, B ou C. Acho que esse patrulhamento não tem o menor cabimento. É um movimento que cresceu nos últimos anos e que, inclusive, é pouco inteligente. Vamos imaginar que o cara mora aqui, torce pelo Flamengo e vai a um jogo contra o Fortaleza. Se é tratado como um ser abominável, qual a tendência? É esse cara criar repulsa pelos times locais e cada vez mais vai gostar do time lá do Sul. Perde-se a chance até de criar uma nova geração de torcedores. Se é tratado como 'vergonha', esse cara vai fazer o diabo para que o filho dele não torça pelo time local. Infelizmente, com o crescimento da intolerância no País, esse tipo de movimento também cresce e não vejo nele vantagem nenhuma.

Como vocês definiriam o atual momento político no País?

MCP: Acho que o Brasil está vivendo um momento muito triste. Se na primeira oportunidade em que um governo vai mal na gestão da economia e, consequentemente, perde popularidade for retirado do poder, não há democracia que resista. Não sou um defensor contumaz do PT, por discordâncias que fui tendo ao longo do tempo, mas o que está acontecendo, e não é só na política, é que vivemos uma época de intolerância muito grande. E não é só no futebol, é religiosa, política... Política não é futebol, não é isso de Fla-Flu. Futebol é uma coisa muito menos importante do que isso.

PA: Acho que aquele domingo de votação reflete bem o que estamos vivendo. É não saber para onde correr. São aquelas pessoas ali, defendendo seus interesses próprios, cercadas por outras que muitas vezes não entendem para onde o País está indo. Também considero triste, com pouca saída, infelizmente.

Até que ponto vocês acham que esta crise brasileira pode estar fazendo a mídia local esquecer um pouco de cobrar mudanças imediatas na CBF?

PA: O Del Nero saiu, voltou e ninguém percebeu, sem ter saído exatamente. A melhor coisa que poderia ter acontecido para aqueles que estavam sendo pressionados e investigados lá fora é essa instabilidade política.

MCP: Num país em que o Cunha preside aquela votação, é natural acontecer o que o Paulo falou: o Del Nero voltar sorrateiramente para sua cadeira. Esses dirigentes sequer podem viajar ao Uruguai que correm o risco de serem presos. Será que vão aos Estados Unidos para essa Copa América Centenário, para a casa do FBI? Certamente não. Quantos jornalistas vão fazer perguntas contundentes ao Del Nero numa coletiva? A maioria vai levantar a bola para ele responder da maneira mais conveniente. Vivemos num país em que o prefeito da cidade olímpica constrói uma ciclovia assassina e continua no cargo, fazendo política. E os responsáveis não renunciaram! E a Olimpíada vai ser no Rio e o prefeito vai estar lá segurando tocha, não sei o quê... O brasileiro tolera tudo.

Tentem descrever a exata sensação que tiveram ao olhar para o placar de Brasil x Alemanha, no Mineirão.

PA: A Seleção vinha mal conduzida, com raros lampejos. Eu narrei o jogo. Estava lá. E havia muita apreensão. A maioria das pessoas sabia que a Seleção dificilmente passaria pela Alemanha. Agora, imaginar o que aconteceria lá... Digo até que foi uma das narrações mais difíceis que fiz na minha vida, porque tinha de passar o que estava sentindo ali, no estádio, e ao mesmo tempo tentar imaginar o que se passava na cabeça das pessoas. Tinha de tentar não ser rabugento o tempo todo e ainda narrar os gols da Alemanha. Foi difícil. Mas o que pega mesmo é o que veio depois. Porque aquilo tudo poderia ser um pontapé inicial para mudanças grandes e estruturais, a começar pelo comando da própria Seleção Brasileira, e nada aconteceu. A impressão que tenho é que aquilo foi em vão. Perdeu de 7 a 1 e pode ser que aconteça de novo? Creio que sim. Do jeito que estamos indo, acho que pode acontecer de novo. É como se não tivesse caído a ficha.

MCP: Diria que foi uma sensação de alívio, por uma postura que adotei desde 2013, de criticar. E não de criticar por criticar, porque nunca falei com Luiz Felipe Scolari, mas respeito a história dele, enfim... Só que a volta dele à Seleção já achei uma coisa absolutamente sem nexo. Um técnico comprovadamente superado. Para quê? Para botar alguém com mais carisma do que o Mano Menezes (seu antecessor), que servisse de escudo para os dirigentes. Não foi uma escolha técnica. O Brasil não fez uma boa Copa das Confederações, mas fez um grande jogo contra a Espanha. Então, a 'Copa da Mentira' mais uma vez iludiu as pessoas, como em 2005 e 2009. E o Brasil pensou que tinha um time. Copa do Mundo é outra coisa. Nela, fui cobrir Uruguai x Colômbia, no Maracanã, no mesmo dia de Brasil x Chile, que já foi o grande sinal. Lembro que, no intervalo do jogo do Brasil, havia muitos jornalistas impressionados com o que estavam vendo. 'Nossa, que time é esse?'. Aí, nesse dia, teve o (programa) Linha de Passe e entrei no segundo bloco. Tomei a liberdade de fazer um comentário muito contundente sobre o time, sobre o Felipão, e aí isso viralizou. Fui muito xingado nas redes sociais, no meu blog, disseram que eu 'não era brasileiro' e aquelas bobagens, como se ser brasileiro ou não dependesse de futebol. Então, aqueles 7 a 1 me deram um alívio, porque era o meu ponto de vista, e tenho que ser honesto com as pessoas. Tinha convicção de que a Seleção Brasileira cairia, mas não imaginava que fosse daquela forma vergonhosa. Na verdade, os alemães deram um presente ao Brasil. Foi uma forma de mostrar que estava tudo errado. Será que ninguém consegue ver nem assim? Aí eles (dirigentes da CBF) trazem de volta um cara (Dunga) que é um vassalo da cartolagem, um soldadinho, quando se precisava de ideias. O Paulo disse e eu concordo: pode acontecer um outro 7 a 1. E aí se cria uma série de muletas do tipo: 'a geração é ruim'... Bobagem. Pode não ser a melhor, mas está longe de ser ruim. Dá para montar uma boa equipe. E tem um craque. O que falta é gente para comandar. E vem a discussão que o Neymar é problema. Ele não é problema, é a solução. Posso não ser fã dele fora de campo. Para mim, é absolutamente sem graça, mais um deslumbrado, mas jogando é espetacular, genial. Então, outro 7 a 1 se aproxima, pois não conseguimos tirar proveito nenhum da lição que os alemães nos deram. (Diário do Nordeste)