SUPERAÇÃO

Asas no lugar de muletas

Acidente deixou o engenheiro preso à cama por quatro anos. Fez 43 cirurgias e passou a usar muletas. Da limitação descobriu possibilidades. Desde então, percorreu 101 países

Luiz Thadeu Nunes percebeu, num acidente em 2003 que o limitou fisicamente, a possibilidade de ir investigar o mundo. Após quatro anos de recuperação sobre uma cama, a velhice veio bem antes do tempo. Aos 43 anos ganhou, no lugar dos desejados chapéu e suspensórios, ganhou duas muletas como companheiras. Inseparáveis “Calculo quantos passos vou dar daqui pra ali. Minha cabeça é sempre calculando passos”.

Em vez do sentimento de autopiedade, ele não se conformou. Quatro anos depois do acidente, atendendo convite do filho, atravessou o oceano. De lá para cá, foram 101 países, nos quatro continentes. Em breve, deve completar a visita aos cinco pontos da Terra. A meta é alcançar 121 carimbos no passaporte. Em cada nova viagem, Thadeu costura enredos e se prepara para novas descobertas. E garante: “Sou rico de histórias”.


O POVO - O senhor já viajava antes do acidente?

LUIZ THADEU NUNES E SILVA - Já, sempre gostei muito de viajar. Quando era estudante universitário, fui voluntário do Projeto Rondon e do Projeto Mauá (projeto federal que possibilitava a estudantes visitar a Amazônia). Visitei muito a Amazônia e a região Centro-Oeste como estudante de agronomia. Quando me formei, com o primeiro dinheiro que peguei, fui para os Estados Unidos. Era um sonho antigo. O ano era 1982. Fui conhecer algumas cidades que todo mundo conhece: Miami, Orlando e Nova York (EUA), Portugal e um pouco da América do Sul. Mas a ideia de viajar se intensificou após o meu acidente.

OP - O que mudou na experiência de viajar após o acidente?

LUIZ - Minhas viagens são uma forma de compensação. Em função de eu ter passado quatro anos em cima de uma cama. Usei aqueles aparelhos horrorosos, que são medievais e passam por dentro da perna. Aqueles ferros, o Ilizarov. Quando sofri o acidente, toda a minha vida mudou. Fiz 43 cirurgias e não tinha perspectiva de nada. Nunca imaginaria, naquele período de convalescença, que um dia eu pudesse andar pelo mundo. Meus filhos foram estudar inglês em Dublin (Irlanda). Com dois meses lá, meu filho (Frederico Costa) disse: “Pai, o senhor não quer vir andar pela Europa?”. Nessa primeira oportunidade, ele montou uma viagem para a gente de oito países. Desembarquei na África, depois da Europa. Fui para Casablanca e Marraquesh (Marrocos). Isso em 2009. De lá para cá, nunca mais parei. Se você tem as duas pernas boas, não imagina o que é uma pessoa que anda de muletas. Calculo quantos passos eu vou dar daqui pra ali. Minha cabeça é sempre calculando passos.

OP - O senhor sofreu acidente aos 43 anos e, durante quatro, ficou de cama, fazendo tratamento no hospital e em casa. Qual foi o sentimento quando o senhor se viu preso a essa cama?

LUIZ - Sem nenhuma perspectiva de melhora. Achava que minha vida tinha acabado, ali era meu fim. Teria de me adaptar a uma realidade. Não tinha mais possibilidade de fazer o que gostaria. Os meus sonhos ali deram um stop. Andei muito tempo numa cadeira de rodas e achava que ficaria sempre assim. Teria uma vida muito limitada. O que me surpreendeu foi ter ido para a Europa com meu filho. Meu filho é meu GPS, meu tradutor, meu Google. Tudo que quero, é com ele.

OP - Antes do acidente, o senhor tinha ido a quais países?

LUIZ - Estados Unidos, Portugal, Paraguai, que todo brasileiro vai, e para Argentina. Só os destinos básicos.

OP - Como foi o acidente?

LUIZ - Perdi um ônibus de Natal para Fortaleza. Precisei pegar um táxi. Aqueles táxis coletivos. Sou perito e estava fazendo trabalho em João Pessoa (PB). Perto de Assu (RN), na divisa com o Ceará, o motorista foi atender o celular. Era fim de tarde e ele dirigia um Monza muito antigo. Estava chovendo, ele perdeu o controle do Monza e nós batemos de frente com uma Scania. Só me salvei porque não estava na frente. Dez minutos antes, eu passei para o banco de trás. Estava o motorista, eu atrás do banco do passageiro. Do meu lado, uma senhora que saiu muito mais quebrada do que eu. O banco do passageiro correu, machucou minha perna e eu tive fratura exposta de fêmur. Todo o meu problema foi essa fratura exposta. Eu tive osteomielite, em decorrência da fratura exposta do osso. Entraram bactérias na minha perna (esquerda). Osteomielite é uma infecção óssea. O osso é a parte menos vascularizada do corpo. Pode ser o antibiótico mais poderoso, mas o osso não tem vascularização. O motorista não sofreu nada. Estraçalhou o vidro e ele teve ferimentos leves.


OP - E como foi a recuperação?

LUIZ - Por que as 43 idas ao centro cirúrgico? Porque quem tem osteomielite, há uma secreção de pus permanente. Então, você tem de ir ao centro cirúrgico, ser anestesiado para fazer a limpeza do teu osso. Já que o antibiótico não chega, eu ficava com uma parte da carne aberta.

OP - Qual o sentimento do senhor em relação a essa situação?

LUIZ - Quando as coisas estão bem, a gente tem de agradecer. As coisas vão piorar, mas vão passar. O bem e o mal nunca duram para sempre. Eu tô numa situação terrível, porque tenho aluguéis. Ontem fui somar o quanto eu deixei de ganhar. Transformei isso em passagens aéreas, dá pra chorar (risos). Não existe crise pior que a de saúde. Mas quando estava na cama, aproveitei para melhorar um aspecto meu. Eu bloqueei minha ansiedade. Ela não podia se manifestar naquele período. Foi quando eu mais li, mais acompanhei televisão. Tenho 15 assinaturas de revistas e jornais.

OP - Na primeira viagem após o acidente, o que representou para o senhor chegar à Irlanda como uma pessoa com deficiência?

LUIZ - Os acessos não eram tão tranquilos. No meu primeiro voo depois do acidente, eu fui pela Air France e Paris estava coberta de neve e eu já desci em neve. Não seria um batismo de fogo, seria um batismo de gelo.

OP - Há algum obstáculo que desestimule o senhor a viajar?

LUIZ - Não, nada me desestimula a viajar. Eu botei na minha cabeça, como meta, chegar a 120 países. Se eu chegar a 120, eu vou aumentar, chegar a 150, 160 países. Hoje são 101. Eu vou para dois e no segundo semestre, eu vou para a África. Para seis países diferentes. Possivelmente, até dezembro, eu chego a 110. O desafio hoje em relação a ir a qualquer lugar: não existe hoje lugar difícil. Existem lugares em que é preciso mais cuidados para entrar. Por exemplo, a Síria. Eu quero ir conhecer Damasco, mas por conta da posição política… Mas, amanhã melhora, eu vou. Um país que melhorou e que eu quero conhecer é o Irã. Só ainda não achei a passagem barata.

OP - Qual foi a viagem mais difícil que o senhor já fez?

LUIZ - Foi ao Líbano (Ásia). Foi numa promoção fantástica, no fim de tarde, principal horário das promoções. Fui direto para Beirute. Passei na imigração e a pessoa perguntou: “Single? Why?”(Solteiro? Por quê?) Eu fui explicar com gestos, no meu inglês muito ruim, que estava dando uma volta ao mundo. Só entro no país com hotel e transporte garantido. Nunca entrei para ir atrás de hospedagem, não posso abusar da sorte. Ela confirmou as minhas diárias. Ela perguntou: “De onde vem?”. E eu: “Brasil”. Ela perguntou: “Cadê a droga?” Eu disse: “No drugs”. O cara me dá água. Dois, três copos. Por que água? Porque quem transporta a droga no estômago, dilata. Ele mandava: “Coloca a língua para fora”. E o cara começou a cheirar minha roupa. E eu, nervoso, tive um acesso de riso. Porque eu achei de uma imbecilidade sem tamanho. Qualquer lugar do mundo tem cão farejador. E eles ficaram bem zangados. E eu pensei: vou ser deportado. Não tem problema, eu vou contar mais uma história. Eu fui ao Líbano, cheguei e não conheci o país. Mas, o cara disse: “Olha, é porque quatro brasileiros foram presos aqui nesse aeroporto tentando entrar com droga”. Mas ninguém me avisou. Se eu soubesse, não ia ter medo daquele procedimento. Ia ser normal.

OP - Onde há mais estrutura para pessoas com deficiência?

LUIZ - Todos os países da Europa, Estados Unidos e Canadá. Aqui, temos leis para pessoas acima de 60 anos. Lá, as senhorinhas puxam a mala delas. São independentes. Organizaram a vida das pessoas para que não dependam nem do parente dentro de casa nem do Estado lá fora.

OP - Quais dos países é o mais adequado?

LUIZ - Finlândia e Suíça. Se você pensou, a Suíça já tinha pensado antes.

OP - E qual o pior em estrutura para pessoas com deficiência?

LUIZ - Países Árabes. Eu fui ao Cairo (Egito). É uma bagunça, uma muvuca. Você olha as pirâmides do Egito e aquilo ali é um inferno. Por causa do calor. No Brasil não tem calor perto daquele. Outra coisa: mosca demais. Eu vou para a Índia agora. E no Nepal, naquele dia (do terremoto, em maio de 2015), era para eu estar lá.

OP - O senhor encara até as montanhas?

LUIZ - Encaro. Se não for muito íngreme. Segurando, devagar. O mundo conspira a favor de quem quer as coisas. Eu tenho chegado a alguns lugares em que as pessoas em querer te ajudar. Eu quero fazer o caminho de Santiago de Compostela. Caminhar 200 quilômetros. Ainda não fiz porque, entre visitar e carimbar (no passaporte) 10 países em um mês e um mês num país só, eu prefiro a primeira opção. Eu quero fazer para provar para mim que consigo. Vou andar no meu ritmo, de 10 a 12 quilômetros por dia.

OP - O senhor viaja pelo Brasil?

LUIZ - Só faltam três estados que eu não conheço. Acre, Rondônia e Roraima.

OP - O que o senhor conhece do Ceará?

LUIZ - Conheço o Interior do Ceará e muito as praias. Duas coisas que eu não conheço aqui é Guaramiranga (serra) e Jericoacoara (Litoral Oeste). Sou apaixonado por esse Estado. Meu sonho de vida é morar entre Fortaleza e Orlando (risos). Aqui se come bem, aqui as pessoas são legais.

OP - Quais das viagens que o senhor fez que lhe deixou com o sentimento de “vou voltar para esse lugar”?

Luiz - O que mais me fascina é o continente Ásia. É diferente de todos os outros. Você ir pro Vietnã, pro Cambodja, pro Miamar, pro Laos, para Filipinas. E as pessoas vivem bem, te tratam bem. Você pega um homem do Cambodja, que come inseto, porque o cara tem pouca comida, e ele te trata bem.

OP - Como o senhor consegue tempo para viajar?

Luiz - Tempo e dinheiro são prioridades. Eu passei 30 anos antes planejando, não sabendo que ia viajar, mas para o futuro. Como diz o ditado no Maranhão, você tem que morder com os dentes para engolir com a gengiva quando estiver velho. O que eu pensava em fazer aos 60 anos, tive que começar a fazer aos 40. Eu organizei minha vida, meu dinheiro para ter plano de saúde, estabilidade maior. Eu ainda trabalho. Sou funcionário público federal. Estou em vias de me aposentar. Organizo minha vida e vou daqui pro outro lado do mundo em uma semana. Não preciso de muito tempo. Você pode parcelar em três vezes as férias no ano.

OP - Escutando as suas histórias, a gente imagina que o Luiz deve ser um cara riquíssimo. O senhor tira dinheiro de onde, como é que o senhor se organiza para viajar?

Luiz - Já conheço todos os sites de compras de passagens mais em conta. Uma dica: as companhias aéreas, quando não vendem todas suas passagens com preço cheio, para não terem prejuízo, elas disponibilizam assentos com preços muito baratos, com um terço ou um quinto do valor normal. Tem uns sites de compras de passagens. Toda sexta, a partir das sete da noite, também começam promoções nas companhias aéreas. Você começa a ver se você tem milhas no cartão de crédito. Dez mil milhas correspondem a R$ 300. Com isso, você vai para qualquer lugar da América do Sul. Você vai daqui para a Argentina por 300 ida e 300 volta, fora a taxa de embarque.

OP - O senhor se considera rico?

LUIZ - Muito rico. Consigo ter sonhos profundos com bolso raso. O que eu quero conhecer? Vocês já ouviram falar no Kiribath? Todas as viradas do ano, é o primeiro nascer do sol no mundo. Fica depois de Fiji, depois da Austrália. É uma ilha de 67 mil pessoas. Além dessa particularidade de o sol nascer em primeiro lugar todos os dias do ano, ela vai desaparecer. Porque o oceano está subindo e ela vai submergir. O rei, mandatário de Kiribath, está comprando terras em Fiji para transferir todas as pessoas. E eu vou a Kiribath, é um sonho. E eu vou agora bem perto, para Austrália e de lá, talvez eu vá para Vanuth, que é perto. Mas eu estou me planejando para até 2018 ir a Kiribath.

OP - O senhor vive de quê?

Luiz - Eu sou funcionário público federal. Isso aqui (olhando no celular) é uma bolsa de passagem e fica sendo alimentada toda hora.

OP - O senhor não adéqua a viagem a viagem ao seu tempo, o senhor adéqua o tempo à viagem.

Luiz - Eu adéquo a viagem ao valor (risos).

OP - Fazer várias viagens em pouco tempo, o senhor acha que vale a pena?

Luiz - Para mim, vale. Porque eu quero pontuar, quero conhecer e depois, o que eu gostar, eu vou voltar com mais tempo, pra passar 10 ou 15 dias.

OP - Não seria interessante contemplar o lugar por mais tempo? Perceber como as pessoas do local vivem?

Luiz - É muito interessante, mas eu não sou mais turista. Sou viajante. O turista é aquele que passa um ano programando viagem de um mês. Eu saio daqui agora e depois de amanhã posso estar na Rússia, no Chile ou posso estar em Caucaia. Para mim, é a mesma coisa. Mesmo com pouco tempo, posso sentar e apreciar como vive o local, o cara que é ribeirinho, que mora numa grande metrópole. Mesmo com pouco tempo, fico observando a forma como as pessoas vivem.

OP - Como o senhor se vê como uma pessoa com deficiência e tão viajada?

Luiz - Me sinto privilegiado. Primeiro, porque consegui organizar a minha vida para ter dinheiro e fazer o que eu gosto. Não é muito, mas é bem administrado. Segundo, porque poderia estar lamentando em cima de uma cama, “ah, eu não tenho uma perna boa”. Mas não interessa, as coisas mudaram. Eu tenho que lançar mão do que eu tenho. A minha restrição dá pra eu andar? Dá. Eu cheguei à Patagônia (Argentina) e tinha um passeio que todo mundo ia para uma caverna de gelo e eu não podia ia. Porque eu podia escorregar e não tinha estabilidade. Todo mundo foi e eu fiquei. Chorei e lamentei? Não. Eu cheguei onde eu podia.

OP - O senhor aproveita esses grandes eventos, como Copa e Olimpíadas.

Luiz - As companhias aéreas têm rotas, têm compromissos e têm de colocar os aviões para voar. Nas Olimpíadas, por exemplo, vêm voos do mundo inteiro para o Rio de Janeiro. Então, vai ter muita passagem aérea do Rio para a Ásia, Europa, Estados Unidos. Tem que procurar as companhias aéreas e ficar atento às disponibilidades.

OP - Como o senhor aproveitou isso na Copa?

Luiz - No primeiro jogo da Copa, no dia 13 de junho de 2014, na arena Corinthians, em São Paulo. Nesse dia, eu estava na Croácia, assistindo de lá o jogo daqui (risos). Pego os voos de volta em grandes eventos, que normalmente são mais baratos. Se você voar de terça ou quarta é mais barato que segunda, porque o fluxo é maior de retorno. As promoções também saem com um mês de antecedência. Para as Olimpíadas, não tenho nada comprado, mas devo comprar.

OP - O senhor disse que não fala tão bem inglês. O idioma também não é outra barreira?

Luiz - Não. Eu cheguei a Xangai (China) e aprendi uma coisa que me deixou maravilhado. Qual a língua que se fala na China? Mandarim. Pois eu falei o “mãodarim”. O inglês do chinês é péssimo. Eles não conseguem falar as palavras. Se você quer ir pra qualquer lugar, você mostra a fotografia do hotel, do restaurante, paga um táxi - que é muito barato lá - o mudo se comunica.

OP - O senhor ainda se admira com alguma coisa pelo mundo?

Luiz - Meu amigo, no dia que eu parar de me admirar, eu morri. Eu tenho fome de conhecimento. Eu já fui 10 vezes em Nova York e hoje se eu for lá, é como se eu nunca tivesse ido.

OP - O que mais lhe admirou no mundo, coisa que o senhor viu?

Luiz - Como as pessoas vivem com tão pouco. Como se adaptam a situações às vezes tão difíceis e não tem violência.

VISITA

FORTALEZA. LUIZ THADEU VISITOU FORTALEZA NO COMEÇO DE MAIO, COM A ESPOSA. ELE FEZ PALESTRA PARA JOVENS EM CAUCAIA. CONVERSOU COM O POVO NO ÚLTIMO DIA 2.

EXTREMOS

EXPERIÊNCIA. EM 2014, ELE PISOU NOS DOIS EXTREMOS DA TERRA EM UM MÊS. ESTEVE EM USHUAIA, ÚLTIMO PONTO HABITÁVEL DO MUNDO AO SUL. POUCO DEPOIS, ESTEVE NO ALASCA.

COMPANHIAS

AMIGOS. ALÉM DAS VIAGENS COM O FILHO E A ESPOSA, LUIZTEM GRUPO DE AMIGOS QUE FORMA ESPÉCIE DE CONFRARIA. TROCAM INFORMAÇÕES E FAZEM VIAGENS JUNTOS TAMBÉM.

PERFIL

Luiz Thadeu Nunes e Silva, 57, é engenheiro agrônomo, formado pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). É funcionário público federal e exerce cargo de perito agrário. É casado com a engenheira agrônoma Heloísa Helena Costa e Silva, 57, com quem tem dois filhos, Rodrigo Costa e Silva, 28, e Frederico Costa e Silva, 27. Em 2003, sofreu acidente de carro, que o deixou com deficiência motora. e, após 43 cirurgias e quatro anos de recuperação, ganhou muletas e decidiu desbravar o mundo.

PERGUNTAS DOS LEITORES

Émerson Damasceno, advogado, cadeirante, integrante da Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência da OAB-CE

LEITOR - Como é rever o mundo com esse olhar diferenciado e quais as impressões do senhor sobre acessibilidade, inclusão e, principalmente, generosidade no mundo afora, comparados com nosso Brasil?

Luiz - O mundo conspira a favor. Se você gosta de uma coisa. Você vai encontrar facilidades naquilo. Como eu comecei a andar pelo mundo e encontrei generosidade. Eu nunca caí nas minhas andanças pelo mundo. As pessoas lá fora estão muito mais acostumada a lidar com pessoas com deficiência do que aqui, então para eles é comum. Eu não puxo mala, porque eu ando com as duas muletas. Mas, em todo lugar, eu nunca fiquei sem ninguém me ajudar. Já estou no 6º passaporte, e o último já encheu todinho.

Henrique Gurgel, cadeirante, presidente da Associação Cearense de Esporte Adaptado, graduado em educação física e mestrando em Saúde Coletiva, pela Universidade de Fortaleza

LEITOR - Como foi a adaptação para voltar à rotina de viagens que o senhor tinha antes da deficiência.

Luiz - Eu contratei uma fisioterapeuta para aprender a subir escada. Eu não tinha jeito que fizesse subir. Quando aprendi, eu ganhei o mundo. Fui para São Paulo e eu não atravessava uma avenida. Um amigo meu atravessou a avenida São João, que é larga que só o diabo, e me chamou do outro lado. E eu com medo de travar, de cair e os carros passarem por cima de mim. Resultado: passei. E eu aprendi a descer e subir escada rolante. Hoje, qualquer avenida eu passo, não tenho problema com escada rolante. E eu ando muito. Se for medir, eu ando 10 quilômetros por dia.  (O Povo)