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Retratos de um Brasil que (não) lê

Pesquisa recém-divulgada pelo Instituto Pró-Livro (IPL) aponta o perfil dos leitores brasileiros

Se olhar para quatro anos atrás, o número de leitores no Brasil aumentou, ainda que isso não seja uma realidade em todas as regiões do País. A conclusão é da quarta pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada pelo Instituto Pró-Livro na última semana, em São Paulo. Em 2011, eles representavam 50% da população, mas hoje, são 56%. O avanço não descarta um dado preocupante: 44% das pessoas "não leem".

A afirmação, no entanto, precisa levar em conta algumas questões. A principal delas é o conceito de leitor adotado pela pesquisa, que considera integrante deste grupo apenas todo "aquele que leu, inteiro ou em partes`, pelo menos um livro nos últimos três meses".

Foi a partir desse ponto que os 5.012 entrevistados, com 5 anos e mais, alfabetizados ou não, questionados entre 23 de novembro e 14 de dezembro de 2015, auxiliaram na obtenção de dados quantitativos dessa realidade.

O secretário da Cultura do Estado, Fabiano Piuba, Doutor em Educação pela Universidade Federal do Ceará e que já foi diretor do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas, do recém-extinto Ministério da Cultura (MinC), atenta para essa falha na metodologia.

"O conceito de leitor é muito mais amplo do que essa ideia da pessoa que leu ou não leu. A leitura é sobretudo uma prática social e cultural de atribuição de sentidos", ressalta o secretário. Este aspecto não inviabiliza por completo, no entanto, alguns apontamentos da pesquisa, que, de acordo com Fabiano, podem trazer possibilidades práticas para o mercado editorial e também subsidiar políticas públicas voltadas para a área.

Apontamentos

Um dos principais destaques a serem considerados é o fato de a população adulta e a que está fora da escola estarem lendo mais do que foi observado nos anos anteriores da pesquisa, embora ser leitor ainda seja uma característica significativamente associada à escolaridade, à renda e ao contexto socioeconômico no qual os indivíduos estão inseridos.

Para Fabiano, isso perpassa um contexto mais amplo e indica que a escola, historicamente, não tem tido capacidade de formar um leitor para a vida inteira, deixando ambientes como o familiar e mesmo o de bibliotecas como espaços importantes de mediação. Os dados apresentados pelo IPL confirmam que, quanto maior o nível de escolaridade do respondente, menores são as proporções de motivação de leitura ligadas a "exigências escolares" ou "motivos religiosos" e maiores são as menções a "atualização cultural ou de conhecimento geral".

Isso porque, segundo Fabiano, "a leitura, o verbo ler, não combina com o imperativo". "Ela pode até ser interessante ou prática no sentido funcional ou instrumental, mas não mostra resultado para a vida inteira", afirma o secretário.

Acessibilidade

No que diz respeito ao acesso e ao consumo de livros, a pesquisa também apresenta dados marcantes. 74% da população não comprou nenhum livro nos últimos três meses. Entre os que compraram livros em geral por vontade própria, 16% preferiram o impresso e 1% o e-book. Mas 30% dos entrevistados nunca comprou um livro.

Fabiano atribui isso a um conjunto de três fatores: escolaridade, poder aquisitivo e um mais subjetivo - o livro e a leitura são pouco presentes no imaginário e na formação cultural do povo brasileiro. Sendo assim, outros objetos e atividades é que ganham prioridade na hora de fazer a escolha.

Entre as políticas públicas estaduais que podem intensificar esse hábito leitor e potencializar esse imaginário estão, por exemplo, o investimento em programas como o Agentes de Leitura e a ressignificação da Biblioteca Pública Menezes Pimentel.

De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, 66% dos brasileiros não frequenta bibliotecas, e isso se deve, em partes, pelo sentido que a população costuma atribuir a este ambiente. Cerca de 29% dos entrevistados acham que ela é apenas um local para se emprestar livro.

No caso da Biblioteca Pública Menezes Pimentel, cujo espaço físico está fechado para reforma há mais de dois anos, a ideia, segundo o secretário é apresentar entre o segundo semestre deste ano e o primeiro de 2017, uma mudança conceitual.

"A proposta é que ela não seja apenas um depósito de livros, mas um centro cultural de fruição, criação e interação com a comunidade", diz Fabiano.

Projeções

Falta de tempo (32%), não gosta de ler (28%), não tem paciência para ler (13%), prefere outras atividades (10%), dificuldades para ler (9%), entre outros fatores, são as principais respostas obtidas dos não leitores. Conquistar esse público é missão para os próximos anos. E, para isso, acredita Fabiano as políticas de leitura não podem retroceder.

"A extinção do MinC pode ter impacto negativo nas ações locais, mas quero crer que são exatamente os estados e municípios, e sobretudo a sociedade, que vai conseguir reverter esse retrocesso", conclui o secretário da Cultura estadual. (Diário do Nordeste)