LIQUIDO PRECIOSO

Água que se perde no caminho

Adutora em Jaguaretama. Flagrante de uma das centenas de vazamentos em dutos“novos” instalados no interior do Ceará

As perdas são um dos grandes problemas dos sistemas de abastecimento de água brasileiros e um tema recorrente devido à escassez hídrica e aos altos custos de energia elétrica, além da sua relação com a saúde financeira dos prestadores de serviços. Por um lado, pode-se afirmar que os sistemas de abastecimento de água sempre apresentam perdas; por outro, quando são elevadas, representam desperdício de recursos naturais, operacionais e de receita para o prestador de serviços.

Em tempos de escassez hídrica, a gestão de perdas de água tem papel fundamental nas ações estruturantes nos prestadores de serviços. Essas ações, na área de gerenciamento de perdas, consistem basicamente em: modernização institucional visando à melhoria na redução de perdas reais e aparentes de água e o desenvolvimento gerencial; institucionalização de atividades rotineiras relacionadas ao gerenciamento das perdas de água no âmbito dos processos operativos dos sistemas de abastecimento de água; aumento da capacidade de desenvolvimento de projetos para redução de perdas de água; desenvolvimento da capacidade de mobilização e comunicação interna (para os funcionários) e externa (para a comunidade) visando dar sustentabilidade, governabilidade e perenidade aos programas implantados.

Sistemas de abastecimento de água sempre apresentam desperdícios, entretanto os custos delas decorrentes devem ser minimizados e estar sujeitos a gerenciamento. As perdas se dividem em aparentes e perdas reais.

As aparentes, também chamadas de perdas não físicas, estão relacionadas ao volume de água que foi efetivamente consumido pelo usuário, mas que, por algum motivo, não foi medido ou contabilizado, gerando queda faturamento ao prestador de serviços.

São falhas decorrentes de erros de medição (hidrômetros inoperantes, com submedição, erros de leitura, fraudes, equívocos na calibração dos hidrômetros), ligações clandestinas, válvulas irregulares nos ramais das ligações (conhecidos como gatos), falhas no cadastro comercial etc.

Nesse caso, então, a água é efetivamente consumida, mas não é faturada.

Já as perdas reais, também conhecidas como perdas físicas, referem-se a toda água disponibilizada para distribuição que não chega aos consumidores. Essas perdas acontecem por vazamentos em adutoras, redes, ramais, conexões, reservatórios e outras unidades operacionais do sistema. Elas compreendem principalmente os vazamentos em tubulações da rede de distribuição, provocados, sobretudo, pelo excesso de pressão, habitualmente em regiões com grande variação topográfica. Os vazamentos também estão associados à qualidade dos materiais utilizados, à idade das tubulações, à qualidade da mão de obra e à ausência de programas de monitoramento de perdas, dentre outros fatores.

46,7% da água que sai dos reservatórios do Nordeste sofre desperdício 

Alguns países do mundo, como Alemanha e Japão, conseguiram reduzir suas perdas para aproximadamente 10%, enquanto Austrália e Nova Zelândia romperam patamar ainda inferior. A média do Sistema Nacional de Informações Sobre Saneamento (SNIS) tem diminuído ao longo dos anos e situa-se, atualmente, no patamar dos 37%. O Nordeste, que tem a maior escassez de água, desperdiça nada menos que 46,7%. Os dados compõem o Diagnóstico Nacional de Água e Esgoto referente ao ano de 2014, mas divulgado apenas em fevereiro de 2016, sendo tomado como referência mais recente para o planejamento dos recursos hídricos.

DESPERDÍCIO ESTRUTURAL X DESPERDÍCIO VOLUNTÁRIO

Sergipe tem a maior perda entre os Estados do Nordeste: 60,2% da água reservada é desperdiçada. O Ceará ocupa a 7ª posição regional, com 40,1% de perdas. Quando considerado o índice bruto de perda linear, o Estado perde 31 mil litros por dia a cada 1 km de distribuição. O consumo média per capita no Ceará no ano de 2014, o terceiro deste período de cinco anos de seca, foi de 129,76 litros. É um gasto maior do que em 2012, primeiro ano da sequência de estiagem, que foi de 125 litros. Em 2013, portanto segundo ano de seca, o consumo per capita ficou em 127 litros. Com esses dados, é possível tirar a paradoxal conclusão: Quanto mais a seca se prolonga e os reservatórios têm ficado vazios, maior é o consumo de água pelo cearense. (Diário do Nordeste)