APRENDIZADO

Como a vida se inscreve na madeira

Por trás da ideia de homogeneidade, os artistas da tradição imprimem seus estilos e inventam novas técnicas

Fabiane de Paula
Como a vida se inscreve na madeira

O caso do Cariri é raro. Não há outra região no Ceará tão identificada com a cultura e com as artes quanto Crato, Juazeiro do Norte e as cidades vizinhas a ela. A religião, um dos principais motores econômicos das duas cidades, também está inscrita no campo da cultura, evidenciada pela condição popular da devoção ao Padre Cícero Romão Batista.

Cícero é ícone de uma cultura que alguns chamam de sertaneja. É a figura do religioso, como foi a de Frei Damião e, antes deles, do Padre Ibiapina. O panteão ainda inclui cangaceiros, artistas populares e um astro de massas do mercado fonográfico, Luiz Gonzaga.

Memória e imaginário são as duas invariáveis no conjunto de matérias-primas usadas por artistas, de diversas técnicas, em suas atividades nos ateliês e oficinas. A base é a mesma; o resultado sempre diferente. A tradição não nega o trabalho do autor. O olhar que se lança sobre as artes, algumas particularmente icônicas do Cariri, como a xilogravura e a escultura em madeira, erra ao homogeneizar, ao ignorar as particularidades.

"Aprendi muito com todo mundo daqui. Um me ensinou uma técnica, outro me passou outra coisa. E eu fui criando a minha", conta Aparecido Gonzaga Alves. Conhecido como Dinho, ele é um dos artistas que criam e têm suas obras comercializadas no Centro de Cultura Popular Mestre Noza, em Juazeiro do Norte. Seu primeiro mestre foi Francisco Sebastião Ferreira de Lima, o Gilberto, a quem chama de "pai". Aos 60 anos, o artista é um especialista num tipo de arte sacra que bebe da fonte do barroco. O "filho" Dinho tomou outros caminhos, sob as bênçãos do mestre. "Minha área são as coisas do Nordeste e meu trabalho, que todos veem e sabem que é meu, é com caricaturas", explica Dinho, enquanto talha em cedro um Luiz Gonzaga robusto, fugindo ao modelo das peças verticais que abundam no Mestre Noza.

Nildyvan dos Santos, o Nil, é um dos artistas mais jovens do lugar. Com 25 anos, talha há quatro em imburana e cedro, ainda que prefira a primeira. "Ela é macia. Ao contrário de outras madeiras, a imburana corta bem em todos os sentidos. Parece que Deus fez ela só para isso aqui. Nem fogo essa madeira pega", explica.

"O estilo vem naturalmente. No começo, você faz e parece mais com o trabalho de uma pessoa ou de outra, mas você acha o seu e sai (de uma forma particular)", diz Nil. Para ele, a arte é mais do que o processo de transformar as matérias-primas, enriquecendo-as simbolicamente. "A arte que faço me deu tudo, sobretudo a paciência. Sem ela, não sai nada", revela Nil, que deixou o emprego na padaria para passar os dias e as noites no Mestre Noza. (Diário do Nordeste)