VALE DO JAGUARIBE

Cerâmicas começam a fechar por causa da crise

Segundo os ceramistas a situação começou a oscilar em 2013, após um período de forte crescimento no setor

Russas. Empresários ceramistas deste município vêm amargando uma difícil realidade diante da crise no setor de construção civil. Com altos estoques, defasagem no preço do produto e projetos de casas habitacionais parados, a medida tem sido reduzir produção, demissões e, em alguns casos, o fechamento da empresa. Das 140 existentes 15 já foram fechadas e pelos menos 45 operam com no máximo 60% da capacidade.

As informações são da Associação dos Fabricantes de Telha Vermelha do Vale do Jaguaribe (Asterrussas) que tem como secretário o ceramista Helano Bezerra. Ele conta que a situação começou a oscilar em 2013, após um período de forte crescimento no setor. "De 2009 a 2012 houve um aumento significativo no número de cerâmicas. O produto estava bom, tinha mercado, então muita gente resolveu investir no negócio", conta. Essa alta concorrência fez com que os preços ficassem congelados a partir de 2011.

Primeiros sinais

Já em 2013 a indústria, que era responsável pela geração de pelos menos 3,5 mil empregos diretos no Município, começou a dar sinais de queda. "O preço para produzir começou a aumentar, assim como os salários dos colaboradores, dos custos de energia, e o preço do produto congelado. Mas a situação ficou muito mais difícil no último ano, puxada pela crise da construção civil no País", acrescenta.

O resultado não foi outro: empresários começaram a demitir, reduzir jornadas de trabalho e produção, para não fecharem completamente o negócio. Uma fábrica gera, em média, 25 empregos diretos, com as reduções, pelo menos cinco funcionários foram demitidos por empresa, havendo, assim, um acúmulo de funções.

"Conversamos com funcionários sobre a situação e, infelizmente, estamos tentando trabalhar de modo a não impactar tanto os empregos, mas que também consigamos cumprir com nossas obrigações", destaca.

Já para o ceramista Antônio Joaquim Neto, a saída foi fechar o empreendimento. Ele atuava no ramo há 15 anos, mas, nos últimos oito, a fábrica esteve arrendada para terceiros que, segundo ele, é prática bastante comum. Porém, no ano passado, recebeu a fábrica de volta, com a luz cortada e muitas dívidas, o que inviabilizou sua reabertura. "Com o preço (da telha) do jeito que está não tem como funcionar. Então ela vai ficar fechada até eu saber o que vou fazer com ela", disse.

A cidade de Russas é polo na produção de telha colonial e vendia o produto nos principais mercados do Nordeste. Com a crise e os altos estoques, as produções estão reduzidas, algumas fábricas optam por fechar durante alguns dias da semana para não pararem completamente.

No Estado

O problema não esta só em Russas, segundo afirmou o presidente do Sindicato das Indústrias de Cerâmicas e Premoldados do Ceará (Sindicerâmica), Marcelo Tavares. "Damos conta do fechamento de fábricas em Caucaia, Cascavel, Canindé e várias fábricas na Região Norte. Muitas estão paralisando, encerrando atividade por 30 dias, dando férias coletivas. A situação no setor esta critica", afirma.

Segundo ele o que tem agravado o problema é a crise de investimentos na construção civil, onde falta o crédito para construção e há o receio de não haver venda. "Não há realização de obras, as construtoras que estão operando trabalham com os estoques que e algumas indústrias estão tendo a prática de baixar o preço para a saída do produto", complementa.

'Minha Casa'

Programas do Governo como o "Minha Casa, Minha Vida" foram propulsores do setor e que, hoje, encontram-se em dificuldades. Tavares relata que, mesmo com o lançamento do projeto "Minha Casa, Minha Vida III" tem havido uma certa desconfiança de construtores, que ainda estão resolvendo pendências com a segunda etapa do projeto.

Ainda com relação ao programa, Tavares faz duras críticas ao modelo como ele vem sendo feito que, vem prejudicando os pequenos empreendimentos. "As obras vêm todas direcionadas com produtos de concreto, isso tem afetado as obras de classe de moradia popular. O produto cerâmico gera mais empregos na sua produção e isso no ambiente de crise em que estamos deveria ser puxado pelo Governo", critica.

Tavares acrescenta, ainda, que as indústrias de cerâmica estão presentes em 140 municípios do Ceará e, com a crise, milhares de empregos estão sendo perdidos.

No último senso realizado em 2012 foram contabilizadas 412 empresas ceramistas, porém Tavares afirmar que esse número cresceu para algo em torno de 440. "Mas, infelizmente, em funcionamento o número é bem menor", concluiu.(Diário do Nordeste)

ENQUETE

Qual a perspectiva para essa indústria?

"Se não houver uma melhoria urgente no setor de construção civil como um todo, infelizmente muito mais cerâmicas no Estado do Ceará deverão ser fechadas brevemente. Isso é inevitável"

Helano Bezerra

Ceramista

"O momento não está fácil para esse tipo de negócio. A minha, por exemplo, deve ficar fechada até que eu decida o que vou fazer com ela. Se ficar aberta, com todas as despesas, não há como manter"

Antônio Joaquim Neto

Ceramista