DRA. PAOLA TÔRRES COSTA

Caminhos para a cura integral

O Ceará passa a contar com o Núcleo de Medicina Integrativa, programa de extensão cujos profissionais de saúde atuam com novo olhar para a pessoa (não o paciente)

O que propõe a Medicina Integrativa e o conceito de cura?

É uma medicina centrada na pessoa e não na doença. Isso é o principal fio condutor. A Medicina Integrativa também se propõe ser baseada em evidências, ou seja, o que é realmente que funciona em todas as técnicas práticas e terapêuticas que são utilizadas. Quando se fala em evidência, é importante ressaltar que não é só a evidência científica, mas também da medicina popular, das nossas sabedorias tradicionais. Isso é muito importante ressaltar. Exemplo: você não precisa fazer um experimento para mostrar que chá de boldo funciona, pois é utilizado há mais cinco mil anos. Não precisa fazer um trabalho científico para mostrar que maracujá é calmante. Usamos evidências não apenas científicas, mas também provenientes da sabedoria popular e das medicinas tradicionais (medicina tradicional chinesa, medicina indígena, ayurvédica). É uma medicina que coloca a pessoa no centro do cuidado, olhando para o corpo, mente e espírito. Isso é algo muito importante do tratamento, porque quando se diz de cura, falamos da pessoa; quem se cura é a pessoa. A Medicina Integrativa tem essa abertura, tem esse olhar para o ser humano que está doente.

Quais são os ganhos advindos da criação do Núcleo de Medicina Integrativa (Numi) na UFC?

É um programa de extensão que oferece Medicina Integrativa para a comunidade. O maior ganho é realmente formar novos profissionais com o olhar da integralidade, que integra todas essas abordagens e, principalmente, oferece uma medicina centrada na pessoa. Sai o nome paciente e entra o nome pessoa. A doença é uma coisa que acontece no universo da pessoa. Isso é uma visão importante, é uma mudança de paradigma. Tentamos realmente fazer com que alunos, profissionais e as novas gerações de médicos tenham o olhar integral e voltado para a pessoa.

O que caracteriza esse programa de extensão? Como se dá o contato com o paciente?

É um programa guarda-chuva. Ele é composto pelo Tecer, um grupo de pesquisa que resgata todo esse conhecimento das medicinas tradicionais por meio da educação transdisciplinar, que é dirigido pela professora Patrícia Limaverde (Uece). Tem o Printar, que é o programa integrativo intensivo de apoio e revitalização, que também faz parte do núcleo e acontece no Instituto Roda da Vida (com Ioga, meditação e práticas corporais para pacientes com câncer). E há o P5inco,um programa de dança, de integração somaestética.

Como o Numi pode somar na formação dos acadêmicos?

Oferecemos palestras com professores convidados, pessoas de ponta na medicina integrativa no Brasil, na América Latina. Iremos convidar também vários professores para ministrar palestras gratuitas aos estudantes. Disponibilizamos a disciplina "As bases da medicina integrativa", que é aplicada na sede do Instituto Roda da Vida para alunos dos cursos de medicina. A partir de agosto, teremos um curso de formação (com três meses de duração) e que será voltado para profissionais de saúde, assim como médicos e não-médicos.

Como um profissional das demais áreas da saúde, a exemplo de fisioterapia e psicologia, pode utilizar os fundamentos da medicina integrativa?

O psicólogo pode usar por meio de uma abordagem centrada na pessoa, estudos, técnicas de entrevista e de apoio, suporte de psicólogos como, por exemplo, Carl Rogers, que utilizava técnicas centradas na pessoa. Também tem Jung, com as terapias Junguianas. Para o fisioterapeuta, teremos cursos de massagem, de Tuiná e do Li- Qong. A abordagem geral é a psicologia da saúde, em que "sai a doença e entra a psicologia da saúde".

Quais são as perspectivas e futuros eventos do Numi?

No dia 11 de maio, apresentaremos na UFC o documentário "Caminhos da cura", que reúne narrativas de pacientes com câncer. Esse documentário foi realizado por mim, com pacientes do Ceará. Viajei três mil quilômetros pelo interior filmando as histórias dessas pessoas, suas dificuldades e esperanças. Haverá uma discussão com os estudantes do primeiro semestre do curso de medicina. Eles estão chegando e nós vamos discutir exatamente as narrativas que os pacientes trazem. A pessoa chega à faculdade e, ao invés de ouvir falar em doença, vai escutar as narrativas das pessoas. Eles verão que, por trás da doença, existe uma pessoa que teve dificuldades, tem sonhos, fé e esperança. É importante que um médico olhe para uma pessoa e não olhe uma doença. Essa ressignificação do olhar do médico é o mais essencial. (Diário do Nordeste)