SERTÃO CENTRAL

Estiagem reduz investimento no setor de turismo

Atrativos naturais e históricos são relegados a planos secundários, diante da grave crise hídrica na região

Banabuiú. O Sertão Central tem um grande potencial turístico a ser explorado. Os monólitos, açudes, um desses que remonta ao período imperial, poderiam motivar a região a apostar em atrair visitantes e movimentar a economia. Mas não é isso o que está acontecendo.

Nesta cidade, distante 214Km de Fortaleza, o Rio Banabuiú já não existe mais. O local por onde corriam as águas do Açude Arrojado Lisboa, hoje, está tomado de mato, lodo e aguapés, depois que a Companhia de Gestão e Recursos Hídricos (Cogerh) deixou de liberar a água para o perímetro irrigado.

Paulo Gomes Ferreira, gerente regional da Cogerh, responsável pela Bacia do Banabuiú, explica que a decisão foi necessária e tomada em conjunto com representantes de mais de 40 instituições públicas e usuários. "A lei determina que, em época de escassez, a água seja usada apenas para abastecimento humano e para matar a sede dos animais. O Comitê de Bacias do Banabuiú decidiu que o recurso ficaria exclusivamente para o abastecimento da sede", disse.

Carnaval

Por conta da decisão, a principal atração turística da cidade, o Carnaval das Águas, uma tradição realizada há mais de 20 anos, vem deixando de acontecer. Neste ano, o rio estava com água imprópria para banho e, em 2015, com o nível do rio já baixo, o movimento caiu em cerca de 50%. O evento atraia cerca de 60 mil pessoas, nos quatro dias, e o comércio foi um dos que mais sentiu esse impacto, deixando de lucrar com a renda que turistas geravam durante o Carnaval. Procurada, a Secretaria de Turismo da cidade esclareceu, em nota, que admite passar por sérias dificuldades. "Desde que o açude perdeu grande parte de seu volume, sentimos essa perda de forma avassaladora e a principal consequência está ligada ao turismo", informou.

Danos

Paulo Ferreira reconhece os prejuízos, mas afirma ter sido uma decisão necessária: "O comitê toma como base dados técnicos e estudos. E nós concluímos que, se continuássemos liberando água, iríamos comprometer o abastecimento na cidade". Barraqueiros e ribeirinhos são os mais prejudicados. Hoje, as 15 barracas que vendiam bebida e peixe nos fins de semana, estão fechadas. Outras estão à venda.

No município vizinho, Solonópole, a situação é a mesma. A cidade é pequena e não dispõe de grandes pontos turísticos. O único que havia, o antigo balneário, que existia na localidade de Boqueirão, hoje, está completamente vazio. As piscinas, que eram cheias com a água que descia do açude, por um sistema de vazão controlada, estão secas. O local está sem atrativos e os comerciantes que tiravam dali algum sustento, hoje, procuram um outro meio.

Natureza

As mudanças no tempo impuseram transformações nos meios de turismo e, quem pode, sobrevive com o que há. É o caso de Quixadá, distante 158 quilômetros da Capital. Somada às esculturas naturais que o tempo se encarregou de fazer nos monólitos que cercam a zona urbana, dando às rochas contornos e formatos que se eternizaram, como o caso da Galinha Choca, a cidade também oferece aos visitantes, outros pontos igualmente poderosos no quesito turismo.

Um deles é o Açude Cedro. Embora não tanto quando no passado, o local ainda integra parte obrigatória do roteiro de quem não conhece a cidade. Mesmo com reserva hídrica abaixo de 3%, a água não interfere na atenção que o Cedro recebe porque, no caso dele, a sua história é o carro-chefe, com uma construção que remonta ao tempo dos escravos.

Adereços e pedras usadas datam do período colonial do País, e o açude já passa dos 100 anos. Para o secretário de Turismo de Quixadá, Fabiano Barbosa, são razões como essas que tornam o lugar vivo até hoje. "A sua história centenária e a sua riqueza própria elevam muito a visitação. Ele também sofreu com a seca. Mas o Cedro ainda continua recebendo uma quantidade significativa de visitantes", afirma. Mesmo assim, Fabiano reconhece que o movimento no lugar diminuiu. "Sem dúvida que quando o açude está seco, há uma rotatividade muito menor", frisa o secretário.

O Município se adaptou ao clima seco e foi criando novos meios para atrair cada vez mais gente. "Temos locais ideais para a prática de voo livre, hotéis onde são realizadas grandes feiras e eventos, resorts que são construídos ao ar livre, tudo isso ajuda a trazer um movimento turístico mais para o lugar", afirma o secretário.

Religiosidade

As rampas usadas na prática de voo-livre já atrairam gente de vários países, como Suíça, Japão, Noruega e Itália, e foram usadas para a quebra de recorde mundial de dois esportistas de Portugal. Além disso, o Santuário Imaculada Rainha do Sertão atrai inúmeros visitantes mensalmente, por sua construção grandiosa em cima de uma serra e por ser um local de grande concentração de fé.

Procurada, a Secretaria Estadual de Turismo (Setur) afirmou, por meio de nota, que tem trabalhado o Sertão Central com destaque em seu material de promoção do Ceará e que a região está sendo contemplada no plano de marketing e publicidade nacional e internacional. Mas ressalta que "o turismo é um setor que depende da conjuntura da economia e também do clima e das belezas naturais". A Setur afirmou que vai continuar investindo na divulgação da região, ao tempo em que "o governo do Ceará segue com as ações de convivência com o Semiárido".

Até o fechamento desta edição, as secretarias de Turismo de Quixadá e Banabuiú não forneceram dados a respeito da movimentação de turistas nas duas cidades. (Diário do Nordeste)