UMA HORTA NA AVENIDA

Uma horta no meio da avenida: conheça o homem que sobrevive de uma plantação na Santos Dumont

A agricultura acompanha Francisco Ferreira desde a infância. Quando saiu do interior e veio para a Capital, o homem resolveu não ter um emprego formal e continuar a tradição da família

Mauri Melo - O Povo
Francisco Ferreira, 54 anos trouxe a ocupação que tinha no Interior para as ruas da Capital / Francisco Ferreira, 54 anos, mantém uma Horta no final da Avenida Santos Dumont, próximo à Praça Helder Câmara, na Praia do Futuro.

Natural de Boa Viagem, Francisco Ferreira, de 54 anos, resolveu fazer uma horta em uma das principais vias de Fortaleza. O canteiro central da avenida Santos Dumont, próximo ao cruzamento com a avenida Dioguinho, no bairro Vicente Pinzón, dá lugar ao cultivo de pelo menos cinco variedades de alimentos, entre eles cebola, feijão e macaxeira. O homem, no local há quatro meses, deixou de procurar comida no lixo e sobrevive da plantação.

Engana-se quem pensa que o cultivo de alimentos não se adequa aos centros urbanos. Francisco afirma que fatura entre R$ 400 e R$ 500 por mês e tem expectativa de o valor só aumentar. Além da venda, ele se alimenta com o cultivo e faz trocas. “Às vezes eu negocio um quilo de feijão por um de arroz e vou me virando”, assegurou. Ele garante que as pessoas confiam na qualidade do produto e não tem problemas para fazer negócios.

O homem, que está plantando em um local público, cria uma relação de cooperação com funcionários da Prefeitura. Ele recebe ajuda tanto com seu cultivo como auxilia a manter as plantações feitas pelo poder municipal. “Querem só plantar e não voltar mais, eu tomo a iniciativa de ajudar... olha só o jeito que tá bonito”, disse orgulhoso. Ele explicou que seu plantio no local é algo provisório, quando estiver mais estável financeiramente comprará um terreno na região.

A agricultura é algo que acompanha Francisco desde a infância. Junto a seu pai, o homem cuidava de terras tanto da família como de outras pessoas. Ele também passou um período cultivando café em Minas Gerais e é taxativo: não usa “veneno” em sua plantação. “Eu só faço benzer e tudo cresce sem problemas. O único contratempo que tive foi quando um jumento passou e comeu minhas macaxeiras”, lembrou.

A liberação de agrotóxicos e a intensificação de seu uso nas lavouras têm se tornado uma preocupação entre os especialistas. Dos produtos liberados neste ano, 33% são considerados “extremamente ou altamente tóxicos" para a saúde na União Europeia. No Ceará, uma fiscalização constatou várias irregularidades no Maciço do Baturité em relação ao uso de defensivos agrícolas. Entre elas, o reaproveitamento inadequado de embalagens e o uso de produtos vencidos.

Relação com a vizinhança

Francisco Ferreira, embora trabalhe vendendo e trocando seu cultivo, não tem uma boa relação com os vizinhos. Questionado se tinha intenção de auxiliar a comunidade com a plantação, Francisco foi bem claro: o plantio é apenas para sua sobrevivência, ninguém irá se beneficiar. Vizinhos relataram que o convívio com o homem é difícil, "ele acorda xingando a todos" e não tem nenhum tipo de aproximação. Um deles afirma que até tentou ajudá-lo, mas ele não aceitou. (O Povo - é parceiro de oxereta.com)